Fogo concelho de Mira, distrito de Coimbra
Domingo, dia 15 de Outubro, um
dia de sol, demasiado calor, os termómetros marcavam 35 graus. Eram 15:00h e já
se viam fogos em todo o lado. Às 16:30h fazia o caminho de Aveiro-Mira pela A17
e via três focos de incêndio, um deles enorme, vinha de Quiaios em direção à
Tocha, por aquela hora nunca imaginei o que iria acontecer.
Por volta das 19h recebia
noticias da minha melhor amiga, estava presa na praia da tocha, o fogo
cercava-os e não tinham como sair, mas estavam em segurança.
Começaram a chegar noticias que o
fogo chegara a Mira, pouco tempo depois soubemos que o Mira Vilas e Mira Oasis
tinham sido evacuados. Estávamos em casa, não corríamos perigo – achávamos nós
– decidimos ir ver o fogo, ver onde estava o fogo, porque as informações eram
poucas.
Pelo caminho reparámos que havia
fogo na Lagoa, a terra do meu namorado. Fomos ver onde se encontrava, o barulho
que ele fazia parecia o mar revolto, mas era o fogo a consumir tudo o que estava
à sua frente. Fui levar a minha mãe a casa, trouxe o meu padrinho e voltei para
a Lagoa, a preocupação era salvar a casa do meu namorado e da minha melhor
amiga que estava cercada pelo fogo.
Quando deixei a minha mãe em
casa, fiquei tranquila, deixei-a no lugar, que para mim, era o mais seguro. Eu
fui salvar as casas dos meus, onde achava que estava o maior perigo e deixei a
minha mãe sozinha na nossa casa.
Na Lagoa tudo ardia, havia casas
em perigo, vim levar o meu padrinho a casa e em Mira já não nos deixaram
avançar, ele decidiu ir a pé até à Presa e eu voltei para trás para a Lagoa.
Durante a noite enquanto tudo
ardia eu só pensava que estávamos todos separados, eu na Lagoa, o meu padrinho
a pé e a minha mãe sozinha em casa. Não sei porquê, apesar de pensar que a
Presa era o lugar mais seguro, sempre que pensava na minha mãe as lágrimas
começavam a cair e eu só rezava por ela e só conseguia pensar que a tinha
deixado sozinha, ainda eu não sabia do pior.
Eram quase duas horas da manhã,
passa um senhor e disse que a Presa estava toda a arder. Só me lembro de pensar
que ia para a Presa, a pé, de bicicleta, fosse como fosse, ninguém me ia
impedir. O meu namorado agarrou na mota e trouxe-me, o caminho foi tão longo,
quando vi tudo a arder, casas a arder, tudo destruído, via um clarão na minha
rua e só conseguia pensar na minha casa. Quando cheguei a casa estava a salvo,
não via ninguém, chamei pela minha mãe, estava no quintal a apagar o fogo. Não
me irei esquecer nunca do momento em que me disse que o meu padrinho tinha
perdido tudo, o pinhal onde tinha o barracão com as alfaias e os tratores
ardeu, ele perdeu tudo.
O local que sempre pensei ser o
mais seguro estava a arder, numa situação normal não havia riscos de incêndio,
estamos a falar de uma rua onde só há casas, em que o único pinhal era o do meu
padrinho e estava limpo. O fogo não veio pelos pinhais, não foi uma frente de
fogo que chegou e queimou. O fogo veio pelo ar, com o vento, as fagulhas voavam.
A nossa casa não ardeu por milagre. Estamos todos bem de saúde.
O meu padrinho perdeu bens no
valor de 50.500€ a 70.000€. Perdeu mais que isso, perdeu o trabalho de uma
vida, ficou sem trabalho, sem rendimento, tem 56 anos e não sabe o que fazer no
futuro.
Não houve um bombeiro, a culpa
não é deles, são poucos, não chegam a todo o lado, mas alguém tem que ser
responsável pela falta de bombeiros, pelo estado do país. Um país arde e não há
meios. Há perguntas que têm que ser respondidas e há medidas que têm que ser
tomadas. Depois do que aconteceu em Pedrogão como é que algo assim acontece? Eu
não percebo nada disto, mas porque é que não há mais bombeiros? Porque é que
não se paga aos bombeiros e se reforçam as corporações? Porque é que não se limpam matas? Porque é que
não há mais tanques? Porque não se reforça a prevenção nestes dias? Porque não
se punem incendiários e porque é que não se altera a moldura penal?
Não é admissão de uma ministra que vai trazer mudanças se nenhuma outra medida for adotada!
A culpa é de todos, no dia 15
estavam 35º graus porque não nos preocupamos com o ambiente, porque não fazemos
nada para melhorar o meio ambiente, porque gastamos água inconscientemente,
porque não reciclamos, porque não moderamos o consumo de químicos e plásticos.
Todos temos que mudar.
O que partilho aqui convosco não
é por motivo nenhum, apenas preciso de partilhar. Sei que o que importa é
estarmos todos vivos, sei que há pessoas que perderam bem mais, mas todos temos
uma história daquele dia e esta é a minha.
Se têm histórias partilhem,
principalmente se forem esperançosas. Agora é tempo de união e de nos ajudarmos,
de ajudar quem perdeu a casa, de ajudar quem perdeu o trabalho, de ajudar o
concelho a reerguer-se. É tempo de ação para evitarmos outro desastre.
Aos meus vizinhos agradeço por
não terem deixado a minha mãe sozinha, por nos termos mantido unidos, por se
revelarem verdadeiros amigos e por não terem desistido. Há três noites que não
temos descanso, esperamos que a partir de hoje comecemos a conseguir descansar
e a conseguir ver um futuro.
Partilho isto no blog para perceberem o porquê da minha ausência. Volto muito em breve, mas agora é tempo de descansar!








